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Transtorno do Pânico - um Enfoque Psicanalítico

"Nada é muito nítido nos assuntos humanos: e quem poderia dizer onde é que termina a saúde e começa a doença?” ( Winnicott, 1989).

 

Segundo o CID 10 – TRANSTORNO DO PÂNICO diz respeito a ataques recorrentes de ansiedade grave, os quais não estão restritos a qualquer situação ou conjunto de circunstâncias em particular e que são portanto, imprevisíveis. Os principais sintomas são: palpitações, dor no peito, tontura e sentimentos de irrealidade. Quase sempre há um medo de morrer, perder o controle ou ficar louco.

Descrito o Transtorno, gostaria de abordá-lo pensando na contribuição que a Clínica Psicanalítica nos dá no entendimento desta patologia.

Tomando como princípio a concepção da Psicanálise, o Pânico está relacionado a um estado de desamparo profundo, a uma angústia extrema, despertado pelo confronto do sujeito com seu desamparo. Normalmente, o indivíduo sente uma falta de confiança profunda no ambiente em que está inserido. Há um estilo na sociedade contemporânea que contribui e muito para a irrupção deste tipo de padecimento, que expressa em sua sintomatologia ideais e valores da sociedade atual, como por exemplo, a valorização desmedida de si mesmo, a priorização do exterior em detrimento do interior, a valorização do que se ter e não do ser, a sociedade do espetáculo, da aparência, do sucesso a qualquer preço e a da imediatez das coisas. O Pânico aparece muitas vezes como a impossibilidade de o sujeito atender a toda esta demanda. Sendo assim, precisa lidar o tempo todo com seu fracasso, sua desproteção, sua solidão e seu vazio.

Do ponto de vista do indivíduo, todos nós somos desamparados desde que nascemos. O bebê imaturo não pode sobreviver sem os cuidados de um outro. É necessário que tenhamos adquirido nos primórdios de nossa infância sentimentos de confiabilidade, num ambiente previsível e cuidador. Ou seja, o indivíduo saudável, que viveu num ambiente de cuidados, estável e sem falhas muito graves, adquire este senso de confiança no mundo. Neste sentido, Winnicott, grande teórico e clínico da psicanálise, fez grandes contribuições, já que suas teorias dão ênfase as primeiras experiências da infância e a importância do indivíduo se desenvolver num ambiente previsível e confiável, para que adquira a capacidade do enfrentamento das situações de imprevisibilidades intrínsecas à vida.

“Sabemos, no entanto, que na vida não há garantias absolutas de nada, que somos seres desamparados desde o princípio, ou seja, podemos morrer a qualquer momento, mas nem por isso deixamos de sair de casa, de viver nosso cotidiano, lidando com os riscos do jogo do movimento do viver” ( Menezes, 2013). O que ocorre é que certas pessoas constroem no decorrer de suas vidas, defesas psíquicas muitos frágeis para lidar com seu desamparo e criam ilusões onipotentes que as deixam muito afastadas das incertezas do mundo e das angústias. Estas pessoas fazem muito pouco contato com seu mundo interno, acham ilusoriamente que tem o controle de tudo, até que uma situação de crise, uma mudança brusca na vida, algo do qual o sujeito não tem controle, desencadeia um encontro terrorífico com o seu desamparo irrompendo agonias impensáveis que vão dando forma ao que chamamos crises de Pânico.

Menezes, (2013) cita que é muito comum para quem vive o Pânico, uma situação de dependência extrema com alguém. Muitas vezes o paciente precisa que alguém o acompanhe nos lugares que necessita ir, embora ele saiba racionalmente, que nada irá mudar. Ele precisa desta concretude na companhia de alguém, com um apego ou então a dependência se estabelece com um remédio, que lhe representa ilusoriamente um ideal protetor que garante a estabilidade do seu mundo interno. A Psicanálise leva o paciente a se implicar no seu sofrimento, a falar, a questionar sobre o que lhe ocorre, a buscar um sentido e significado ao que parece não ter sentido: os ataques do Pânico. É necessário que este sujeito subjetive este desamparo, pois até as crises começarem, estas situações não foram sequer pensadas e entendidas pelo paciente.

Penso que a Psicanálise, representa um caminho, uma porta que se abre na busca do sujeito para tolerar as incertezas e frustrações inerentes a vida humana.

Dra. Marina Pacheco Valim
Psicóloga clínica e Psicanalista
CRP: 06/78139

Fontes bibliográficas: - Menezes, L.S ( set, 2013) Artigo - Revista Mente&Cérebro.
- Santos, L. O ( 2009) Transtorno do Pânico, sua aparição na sociedade de risco – Ed: Casa do Psicólogo.
- Menezes, L. S ( 2006) – Pânico: efeito do desamparo na Contemporaneidade. Ed: Casa do Psicólogo.